11 de junho de 2018

Transexualidade




Transexualidade 
A letra “T” do movimento  transexualidade, eu particularmente, não utilizo o termo 'transexualismo' pois remete a algo patológico, como na palavra homossexualismo, o sufixo “-ismo”, doença, já abolido a anos.

Muito diferente disto a Transexualidade é uma condição particular do individuo cuja a identidade de gênero difere daquela designada no nascimento e que procura fazer a transição para o gênero oposto através de intervenção clínica com hormônios e cirurgia de redesignação sexual, levando o individuo a feminilização ou masculinização, depende do gênero a ser transicionado.

Importante citar que um ser é muito diferente do outro, não existe uma regra que engloba todas as pessoas transexuais, é um conjunto de profissionais multidisciplinares em concordância com cada individuo que tomam as melhores providências para corrigir seus corpos e não simplesmente mudando de sexo.

O primeiro país a resignificar a transexualidade, deixando de ser considerada como transtorno mental desde 2010 foi a França e desde 2013 a OMS retirou da Classificação Estatística Internacional de Doenças, o CID.

UMA GAROTA DINAMARQUESA

Há um filme muito interessante sobre o tema: “A Garota Dinamarquesa” de Tom Hoper, que destaca sobre esse assunto, o aborda claramente, baseado em fatos reais, a personagem vive uma transformação inicialmente inimaginável e que se torna cada vez mais evidente ao longo da trama.

É uma história de um casal como outro qualquer, feliz em seu cotidiano, são pintores na Dinamarca pós-primeira guerra, mas há uma mudança significativa quando decidem realizar uma fantasia: o marido de Gerda, Einer, se traveste de mulher e assume o nome de Lili para acompanhá-la sem ser notado.

Mas a partir daí surge uma nova subjetividade, elementos e inquietações até então “adormecidos” em seu interior começam a despertar e interagir com o mundo exterior de Einer e Gerda. Na trama percebemos que é Einer a farsa, que Lili realmente sempre esteve presente internamente.

A narrativa deste filme problematiza todos os envolvidos na vida de Einer/Lili e Gerda, o próprio Einer, sua relação com Gerda e ela consigo mesma, as reações dos amigos e da sociedade, com os médicos e a medicina. Seu ápice acontece ao aventar-se a possibilidade de uma cirurgia de redesignação sexual, sendo que será a primeira da história, onde finalmente Lilli estará livre por completo de Einer.

Além das implicações da psique envolvidas nesse filme, das incomodações sociais e afetivas, devemos observar que este fato ocorreu a quase 100 anos atrás, onde uma cirurgia como está tinha altíssimo risco de morte por conta da série de complicações de saúde, diferente dos tempos atuais.

Nos tempos atuais há muito mais esclarecimento científico e cultural, socialmente as pessoas trans encontram amparo em organizações e trocas de experiências e saberes entre si, algo que não acontecia nos idos anos de 1920.

Importante destacar Gerda dentre suas inquietações apoia incondicionalmente Lili na busca de sua identidade e nova vida mesmo consciente que será o fim de seu casamento, profissionalmente pouco reconhecida, diferente de seu marido que possuía um enorme sucesso.

Mas Lili muda tudo isto, resulta em uma sublimação freudiana, processo psíquico no qual se abre mão de uma satisfação sexual em beneficio direto de uma atividade cultural no caso de Lili. Inesperadamente Gerda encontra o sucesso quando retrata Lili em suas pinturas ao passo que esta se recusa a voltar a pintar, “quero ser mulher e não uma pintora!” diz Lili.

As questões trans incomodam negativamente àqueles que pensam que são pessoas secundárias ou significativas ameaças à “família”, é um assunto muito importante, mais debatido abertamente nos tempos atuais, assunto completamente inviável no passado, ganha espaço com filmes como esse, há outros que tratam da temática, filmes de Pedro Almodóvar na época de 1980, mas feito em estúdios de Hollywood é algo importante pois alcança o grande público.


A personagem Lili é uma mulher muito à frene de seu tempo no sentido de vanguarda social quanto da antecipação do sujeito, como a psicanalise a concebe. É interessante ver a reação de uma das amigas do casal quando vê Einer travestido pela primeira vez exclamar: “vamos chamar você de Lili!”. 

Einer encontra dentro de si Lili como uma unidade completa, um ser com sonhos, desejos e gostos completamente distintos, a partir daí, dessa representação de outro em si, não há mais volta. Os protagonistas desta trama, Alicia Vikader e Eddie Redmayne, foram indicados para o Oscar de 2016 talvez uma mudança notória dos tipos de histórias contadas por Hollywood para o grande público, pode significar que estariam preparados para uma mudança tão radical quanto Lili passou?




Vale prestigiar esse filme e entender a história com narrativa de fácil entendimento, mas que leva a profunda reflexão. Filme: “A Garota Dinamarquesa” – duração 119 minutos, país EUA,  ano de 2015 com Direção de Tom Hooper, e atores: Eddie Redmayne, Alicia Vikander e Ben Whishaw.